Empatia, escuta e pensamento compartilhado não são competências adicionadas ao longo do caminho. São parte da estrutura de Gabriela Riboli, especialista em cooperativismo na Sicredi Pioneira.
“Eu não consigo pensar no indivíduo sozinho”, afirma com naturalidade. Para ela, decisões nunca foram solitárias. Ideias nunca foram isoladas. Construir sempre significou fazer junto.
Desde cedo, ela buscou compreender como as pessoas se organizam e como soluções coletivas podem gerar transformação real. A inquietação pelo funcionamento das comunidades, pela dinâmica das relações e pela construção conjunta de valor a levou a experimentar diferentes caminhos até encontrar no cooperativismo um território onde suas convicções faziam sentido.
Ao ingressar na Sicredi Pioneira como jovem aprendiz, ainda não tinha todas as respostas sobre o futuro. Mas já exercitava aquilo que se tornaria sua principal força: escutar antes de propor. “Eu costumo dizer que eu nunca digo não”, conta. Não por impulsividade, mas por curiosidade genuína. Cada novo desafio ampliava sua visão de contexto, processo e impacto.
Foi assim que se aproximou de programas de intraempreendedorismo, iniciativas de escuta interna e, posteriormente, do laboratório de inovação da cooperativa. A trajetória não foi uma ruptura de áreas, mas uma evolução natural. Porque, no fundo, seu trabalho sempre esteve alinhado a uma mesma lógica: criar condições para que pessoas e organizações cresçam juntas.
Inovação e cooperativismo: quase sinônimos
Ao estudar cooperativismo com profundidade, Gabriela percebeu algo que redefiniu sua visão. “Eu costumo falar que o cooperativismo é inovador desde a sua essência.”
Muito antes de o vocabulário da inovação corporativa ganhar termos como diversidade, ESG, inclusão e construção coletiva, o cooperativismo já operava sob essa lógica. Desde suas origens, nasce como resposta a uma dor coletiva, reunindo pessoas diferentes em torno de um propósito comum.
“Quando a gente fala de diversidade de opiniões, de divergência e convergência de ideias, isso é cooperativismo”, afirma. “São quase sinônimos.”
Para ela, inovar não é necessariamente criar algo inédito. É construir soluções relevantes a partir da escuta e da conexão. “Inovação sem vínculo, sem conexão, ela não transforma nada.”
Essa visão também redefine seu papel. Gabriela não se posiciona como protagonista das soluções, mas como impulsionadora. “Eu tenho o método. Eu tenho as ferramentas. Eu dou voz, dou espaço e mostro o como fazer.”
O exercício constante de escutar antes de propor
Um dos momentos mais decisivos da sua trajetória foi a estruturação do programa de aceleração de cooperativas da Sicredi Pioneira. A ideia inicial era criar um programa de incubação. Mas, ao mergulhar no ecossistema local, visitar cooperativas e conduzir entrevistas, ela percebeu que o diagnóstico estava equivocado.
“Não era um solo fértil para nascer cooperativas. Era um ambiente para desenvolver as que já existiam.” Essa mudança de rota só foi possível porque a escuta veio antes da execução. “O achismo é importante, porque vem de um lugar de vivência. Mas não pode ser só isso. É o achismo junto da pesquisa e da escuta que traz algo que realmente faz sentido.”
A combinação entre método e sensibilidade passou a orientar suas decisões. Não se trata de ter todas as respostas. Trata-se de fazer as perguntas certas.
O Caso Mundo Mais Limpo: acreditar e plantar sementes
Entre os projetos que mais a marcaram está a cooperativa Mundo Mais Limpo, acelerada na primeira turma do programa Aceleracoop. O grupo reciclava óleo de cozinha para produzir sabão em barra e o plano inicial era fortalecer a marca e ampliar as vendas. Mas havia algo maior ali.
“Eu vi que era um projeto bacana, mas que tinha potencial para mais iniciativas.”
A partir da mesma base de óleo reciclado, surgiu uma nova proposta: desenvolver velas aromáticas sustentáveis. Novo produto, novo posicionamento, maior valor agregado. O impacto foi imediato. A renda das cooperadas aumentou e novas mulheres em situação de vulnerabilidade foram incorporadas ao grupo. A qualidade do trabalho melhorou e o reconhecimento do mercado cresceu.
“Eu acho que o ponto chave é acreditar que elas podem mais. A gente já acredita. Mas precisa fazer elas acreditarem.”
Não foi a inovação tecnológica que transformou o negócio. Foi a combinação de escuta, método e confiança no potencial coletivo.
Clareza, desapego e confiança no processo
Para Gabriela, a inovação precisa estar conectada a uma dor real e a um propósito claro. Caso contrário, vira apenas discurso. Ela reforça que, no contexto das cooperativas, a lógica deve ser ainda mais cuidadosa. “A cooperativa é do tamanho que o cooperado quer que ela tenha.”
Não adianta querer mais do que o coletivo deseja. A inovação não pode ser imposta. Deve emergir da necessidade comum. Por isso sua frase resume sua visão de mundo:
“É o coletivo que puxa a inovação, e não o contrário.”
Ao refletir sobre o que diria para times que atuam em cooperativas, Gabriela é objetiva. “Primeiro, tenha clareza do porquê. Tudo tem que partir de um porquê bem definido.” Depois, não se apegar a uma única ideia. “Se eu tivesse me amarrado à ideia de incubação, talvez o resultado fosse outro. Está tudo bem ajustar a rota.”
A trajetória de Gabriela reforça que a inovação não é sobre protagonismo individual. É sobre criar espaço para que pessoas, juntas, construam soluções que façam sentido. Agradecemos à Gabriela Riboli por compartilhar sua visão e nos lembrar que transformar realidades começa pela escuta e pelo compromisso com o coletivo.